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É comum, nos dias de outono, eu e Martin passarmos mais tempo em casa, gastando umas horinhas no sofá, com o Dicker esparramado em um dos cantos a nos roubar uma parte do cobertor. Porque às vezes acontece de o sol desaparecer por completo e ficar dias sem dar o ar da graça. Então imagina, um friozinho agradável, o céu cinza, as árvores ficando peladinhas, as folhas amarelas cobrindo o asfalto…o que é que sobra? Só mesmo o convite para um chazinho quente e um bate-papo descompromissado no aconchego do lar. Ano passado estávamos assim, em um destes dias de outono, conversando sobre o tudo e o nada e em como seria lindo se tivéssemos um filho ou uma filha ou os dois, para poder sair para passear com eles empacotadinhos de pullover e luva e cachecol e, assim, fugir um pouco destas nossas tardes lânguidas. Sonhávamos!

O outono deste ano chegou. Na ausência do sol, nós ainda nos sentamos no sofá e o Dickerbild-110.jpg permanece roubando espaço e cobertor. O que mudou foi o rumo das nossas conversas, pois com as intromissões – entenda-se chutes, socos e reviravoltas – do Luka fica impossível levar um tema até o final. Começamos falando abobrinha e terminamos no Lukinha: como ele será,, se ele vai ser chorão ou brincalhão, dorminhoco ou não, o que ainda precisamos comprar e…como pagar?

Agora falta pouco, quase três meses para a melhor parte do nosso sonho se tornar realidade. Depois, mais um pouquinho de meses e pronto: eu e Martin e um outono com bebê pra passear.

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Nossa terceira CTG me acalmou. As contrações diminuíram e a médica me liberou do repouso absoluto. Já posso, como ela mesma disse, sair de casa e começar a comprar as coisinhas do bebê – já que estou quase na 25a. semana – mas não devo me exceder batendo perna pra lá e pra cá, nem carregando sacolas pesadas. As enfermeiras neste dia também ficaram um bom tempo à minha diposição, ora aconselhando ora jogando conversa fora e, verdade seja mais que dita, eu não tenho do que reclamar. Desde que comecei o pré-natal, tenho recebido atendimento v.i.p. Todos são atenciosos e simpáticos no nível germânico da simpatia – aquela coisa do nem tanto ao céu, nem tanto à terra – o que me deixa muito a vontade para me comportar naturalmente, sem receio de reprimendas, indelicadezas ou desapontamentos, isto porque já entendi que o segredo da cordialidade alemã está em como você interpreta e aceita as regras. Basta ser um pouquinho como eles que tudo dá certo.

* * *pijama_blog.jpg

Minha necessidade básica desta semana foi um pijama novo com um número maior. Com ele no corpo, consegui a vitoriosa façanha de dormir três horas, acordar, voltar a dormir por mais duas horas e até sonhar. Eis aqui o mais puro exemplo da influência indumentária no sono de uma gestante.

…jogue suas mãos para o céu e agradeça se acaso tiver alguém que você gostaria que estivesse sempre com você. Na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê…”


martin_blog.jpg Minhas insônias permanecem inalteradas. Já não sei mais o que é deitar, dormir e acordar no dia seguinte e isto além de me causar um cansaço tremendo, mexe profundamente com meu estado de espírito. Martin ronca. Dicker ronrona. Eu suspiro. Às vezes Luka acorda de madrugada para me fazer companhia. Então nós conversamos em pensamento para não despertar os senhores ao nosso lado. Pela manhã Martin pergunta como passei a noite. Eu já não respondo, resmungo qualquer coisa pra ele entender que continuo na mesma enquanto ele tenta me consolar, aconselhando um “Mittagschlaf” (a sesta). Mas o Mittagschlaf não traz bons resultados, simplesmente porque o sono não vem e eu continuo com cara de bolacha amassada e mal humorada. Uma noite dessas, ele pegou um dos livrinhos do Luka na estante e me contou uma história. A tentativa de me botar pra dormir foi inútil, claro, mas saber que ele se preocupa comigo me dá forças para aguentar os meses que ainda faltam.

einsternfurdich_blog.jpg “Uma estrela pra você”

“Pscht! Fiquem quietos. Eu acho que o vovô está nos chamando!”

Bianca, a coelhinha, tem bons ouvidos.

“Alex! Simon! Lukas! Yvonne! Já está na hora de ir para casa, Bianca, desligue a música, por favor!”

A festa acabou. O vovô é muito rigoroso.

Bianca apagou a luz e ficou na janela. Os seus amigos foram todos para casa e da janela ela pode vê-los. Lukas, o ouriço, está tocando a campainha da casa dele. Tchau Lukas! Alex, o crocodilo, já está indo pra cama. Tchau Alex! Simon, o pequeno urso, está subindo as escadas de sua casa. Boa noite, Simon! Yvonne, a pata, ainda está caminhando na rua. Até amanhã, Yvonne!

“E aí, como foi a festa?”

“Maravilhosa, vovô!”

“Que bom. Mas agora está na hora de escovar os dentes. Já está muito tarde.”

“Oooh! Agora? Vamos brincar mais um pouquinho…”

“Você já brincou muito por hoje. Veja, os seus amigos já estão todos indo dormir.”

Pela janela eles vêem que Lukas já está na cama. A mãe dele está contando uma história.

Yvonne está penteando os cabelos, Alex escovando os dentes e Simon bebendo leite.

Bianca balança a cabeça. O vovô tem razão.

“Tudo bem, vovô, nós podemos brincar amanhã. Mas você poderia me contar uma história pelo menos?”

“De acordo”, respondeu o vovô sorrindo. “Aqui está o seu leite”. einsternfurdich2_blog.jpg

 

“Vovô, por que as noites são escuras?”

“As noites são escuras porque o sol está dormindo”

“O sol dorme como nós?”

“Bem, é assim que costumamos dizer. Venha, deite-se direito e eu vou te explicar porque as noites são escuras”.

“Oh, que bom!”

Bianca entrou rapidinho embaixo do cobertor.


“Sabe, o sol nos dá calor e luz”

“Como uma lâmpada?”

“Como uma enorme lâmpada.”

“Ah ha! E à noite alguém o apaga?”

“Hmmm ahmmm”. O vovô não soube direito o que devia responder.

“Não, ninguém pode apagar o sol. Ele se esconde atrás da floresta e então tudo fica escuro”.

“E as estrelas, vovô? Elas são pequenas lâmpadas?”

einsternfurdich1_blog.jpg “Pode-se dizer que sim. Está vendo aquela estrela que está em cima da casa da família ouriço? É a estrela do Lukas. Enquanto o Lukas dorme ela o fica vigiando.”

“Eu tambem tenho uma estrela, vovô?” Bianca ficou procurando sua estrela no céu.

“Você também tem uma estrela, assim como todas as crianças, mas você não pode vê-la. Sua estrela só vai brilhar quando você dormir. Ninguém consegue ver sua própria estrela. Está vendo? Agora as estrelas do Simon, Alex e Yvonne estão nascendo, significa que eles estão todos dormindo. Por isso eles não conseguem ver suas estrelas. Mas eu vou ver a sua, minha querida, assim que você adormecer”.

Mas a Bianca já não está mais prestando atenção no vovô. Ela adormeceu. einsternfurdich3_blog.jpg O vovô a ajeitou devagar na cama. Depois, fechou a cortina e apagou a luz. Antes de ir dormir, o vovô ainda deu uma volta pela casa. Ele olhou para o céu.

“Como a sua estrela é brilhante, minha querida!”

E feliz, fechou a porta devagar.

“Ein Stern für dich”, Michel Gay, Josette Chicheportiche, aus dem Französischen von Holger Fock und Sabine Müller, Moritz Verlag, Frankfurt am Main.”

ctgi_blog.jpgFizemos mais uma CTG (Cardiotocografia). Eu e Luka estamos bem, mas continuo com pequenas contrações, de modo que a médica duplicou a dose de magnésio, recomendou repouso e retorno em 7 dias.

Luka não sossegou durante todo o tempo que fiquei com a barriga amarradinha e para mostrar que já reconhece a voz do papai – que aliás ficou tagarelando com ele sem parar – ficou respondendo com pontapés e socos espetaculares. Que menino interativo! Chegamos a gravar as batidas do coraçãozinho dele, 144 por minuto, e também o barulhão dos chutes e das reviravoltas.

A médica disse que o bebê deve ter herdado esta agitação toda do papai. Ela já percebeu que Martin é um genitor interessado, cuidadoso e participativo. Ele nunca diz que a mulher dele está gravida. Quando aparece uma oportunidade de contar a alguém, ele sempre diz “estamos grávidos” e vai logo mostrando uma das fotinhas do filho. Por mais que ele não sinta as piruetas do Luka como eu, ele se esforça para imaginá-las e, neste caso, a CTG ajuda bastante, pois nem sempre o Luka está disposto a mostrar seus movimentos quando ele coloca as mãos na barriga da mamãe aqui.

 

Ontem foi meu aniversário e fiquei o dia inteiro sob os cuidados de Martin. Primeiro, com café da manhã na cama, beijinho, flores, bolinho com velas, cartão personalizado. Depois, almoço no sofá e pra terminar jantar na cama de novo.

Adoraria dizer que ficamos 24 horas no “love”, mas a verdade é bem outra: ficamos na cautela. É que no dia anterior, havia recebido no consultório da minha ginecologista um presentinho antecipado bem desagradável chamado “contrações de Braxton Hicks”, que colocou por terra nossos planos comemorativos.

Para mim que sou primigesta – mamãe de primeira viagem, ou no meu caso, mamãe de primeira viagem que vive no mundo da lua – estas contrações eram apenas os movimentos do Luka, que já há alguns dias não pára quieto, mas enganei-me redondamente, como redonda está a minha barriga. As mexidas, que não são mexidas, são uma mistura das cambalhotas dele com as já citadas contrações, segundo minha médica. Ela, depois de analisar o resultado da cardiotocografia, receitou magnésio e repouso absoluto de uma semana.

Fiquei desapontada comigo mesma, me perguntando se havia feito alguma coisa errada e estou até um pouco preocupada, mas sei que não deveria. As contrações, como a médica disse, fazem parte da gestação e não há como evitá-las. Por isso, o melhor a fazer é observar a regularidade e intensidade delas e não infestar a cabeça com maluquices. Até porque, a esta altura do campeonato, o Lukinha está sentindo absolutammente tudo o que sinto.

E por falar em tempo decorrido, mal posso imaginar que já estou na 22ª. semana. Engordei mais um pouquinho e agora me encontro com 59 quilos – 4 a mais que meu peso original. Estou na média e recebi inclusive elogio da enfermeira. Luka está muito bem, pesando 344 gramas, perfeito para a idade gestacional dele.

Foi um aniversário excepcional. Nada de festinha nem presentes variados. Só mesmo a presença de Martin, Dicker e Luka. Ele, aliás, me deu o melhor presente de todos através da ultrasonografia, comportando-se como um verdadeiro “Martin Junior”, mais especificamente, rindo e esticando o braço para nos dar tchauzinho e me desejar “feliz aniversário”. Até a médica achou graça do meu menino simpático.

Pode ser pretensioso o que vou dizer, mas estes últimos meses tenho vivido como uma rainha, ainda que meu reino se limite a quase 70 metros quadrados de área coberta e que meus súditos sejam apenas dois: o marido e o gato. Pelo primeiro, posso me dar ao luxo de ser financiada -que paradoxo! – pelo último, deixo-me apenas ser aquecida, já que um vassalo ao lado do meu trono, refrescando-me com um leque enorme de folhas de palmeira, enquanto folheio revistas e livros de bebês, foge completamente à realidade do norte da Alemanha.

Renunciar ao trabalho fora de casa foi uma decisão minha (se bem que o vassalo n°1 opinou) e, salvo alguns momentos de feminismo exacerbado, não me arrependo. Luka preenche meus dias, minhas semanas, minhas prioridades e meus pensamentos. Tudo agora gira em volta dele – como a terra gira em torno do sol – transformando meu reino num acumulado de coisas imprenscindíveis.

Foi assim com a máquina de lavar louça, que até então eu considerava um artefato nulo e esbanjador de energia, pelo menos para dois adultos com manias ecológicas. Esta coisinha, no entanto, veio parar na nossa minúscula cozinha porque meu vassalo pé-de-chinelo, já prevendo os dias infernais que ele terá com um pano de prato nas mãos enquanto estarei acumulada de afazeres maternos, eliminou antecipadamente os riscos de stress. Ele pediu autorização à rainha, que aliás sempre dá a última palavra, e assim foi feito. Porque ela também não é besta.

Depois, principiou-se a mudança da estante de livros, da mesa, da impressora e outros trecos do recinto escritorial para nosso leito de amor ou para a lixeira mesmo. O PC foi aposentado e a mesa foi parar no sótão, pois, definitivamente, não há como encaixá-la entre a cama e o guarda-roupa. De modo que nosso escritório não existe mais. Lá será apenas e tão somente o quarto do Luka. O problema é que, vazio como se encontra agora, ele exige dos meus olhos, todas as vezes que abro a porta, rapidez na decoração, e, conseqüentemente, mais trabalho para mim, que devo pesquisar e pensar e analisar e calcular e telefonar e,e,e…

O vassalo n°.1 paga as contas, instala e desinstala móveis, troca fios de lugar. e etc. sem problemas. Às vezes, ele perde o respeito e reclama de mim para os colegas, dizendo que ainda é cedo demais para tais procedimentos ou, pior de tudo, fica afirmando que isto é “desespero de mulher barriguda”, como ele mesmo designa meus chiliques de rainha.

Talvez ele ainda não tenha conseguido entender que vassalo não retruca ordens. Então, quando isto acontece, eu o faço recordar, com um beijinho na ponta do nariz, de que foi ele, mais do que ninguém, que me coroou. Portanto, agora, que agüente.

* * *

Luka ganhou uma cadeira de bebê para o carro. Um presente valioso, tanto para ele quanto para o nosso bolso. Acho que começamos bem.

Andei pela internet a fora – ou a dentro – procurando informações sobre o comportamento dos gatos com recém nascidos. Em todos os sites que entrei não encontrei nenhum caso de arranhões e mordidas de gato em bebês. E se o Google é o Google, então acho que posso encerrar minhas buscas. O que mais gostei de ler, no entanto, foram os blogs das meninas portuguesas que estão – ou estavam – grávidas. Além de tomar conhecimento de experiências pessoais, costumo dar muito mais crédito a tais depoimentos porque estes esclarecem coisas do dia-a-dia em uma linguagem tão próxima que é como se estivéssemos conversando com a pessoa tête-à-tête. Algumas até comentaram aqui no “filhos da mami” e eu só posso agradecer pela contribuição delas neste momento da minha vida.

dicker_eu_blog1.jpgTodos que me conhecem sabem que Dicker é muito especial para mim. Quando cheguei na Alemanha e não dominava a língua, era com ele que conversava nos meus momentos de solidão e era dele que recebia a compreensão de que precisava. Ele passou a ser meu amigo e confidente e não há nada mais gostoso do que nossas trocas de afagos. Quando chego em casa e recebo o chamego dele entre as minhas pernas – como quem diz “que bom que você voltou” – ou quando estou sentada no sofá e ele vem aninhar-se perto de mim ou quando estou no computador e ele deita em cima do meu pé, ou ainda quando vou dormir e ele pula no meu lado da cama para dar boa noite antes de se embolar em algum cantinho do colchão são momentos de pura veracidade entre ele e eu. E há tantos outros momentos que poderiam ser descritos aqui, mas que, infelizmente, não cabem em um post.

E é por isso tudo que não consigo aceitar alguns palpites. Entendo, por exemplo, a preocupação da minha mãe, que influenciada por lendas urbanas e opiniões de amigas, vizinhas e & Cia Ltda a assustam e me assustam, dizendo que Dicker vai me morder e arranhar o bebê por conta de ciúmes e que vai nos transmitir doenças perigosas. Entendo, porque sei que as pessoas têm boas intenções, mas não aceito. Espalhar estes negativismos sem fundamento, que por sinal são, na maioria das vezes, ditos por quem nunca teve felinos em casa, só ajuda a aumentar, ainda mais, as malvadezas cometidas contra eles.

A veterinária do Dicker assegurou que ele não vai fazer nada de mal com o Luka. Se quisermos já ir preparando o terreno, é conveniente deixar uma fralda em algum canto do apartamento ou espalharmos um pouco de pó de bebê no tapete, para que ele possa ir se acostumando com o cheiro. No mais, é não desampará-lo quando Luka chegar e curtir a vida à quatro sem neuras.

 

Martin, que é o sossego e o bom humor em forma de gente, não está nem um pouco preocupado com isso. Para ele, tudo vai acontecer naturalmente. Outro dia mesmo compramos o primeiro pacote de Pampers. Assim que ele chegou em casa, tirou uma fralda da embalagem e fez o Dicker cheirá-la. Quando perguntei se ele sabia como colocar fralda em bebê, ele respondeu, com aquela carinha linda de indignado dele, que SIM e foi logo procurando o Dicker para servir de manequim!


dicker_blog.jpg A última dessa semana foi o ringtone “baby crying”. Quando o Dicker ouve o estridente choro do bebê no celular ou no laptop, corre da sala pra cozinha, da cozinha pro quarto, do quarto pro banheiro, sempre com os olhinhos arregalados. Coitadinho!!! Que treinamento de choque, não?

* * *

 

Estou com dois quilos a mais que o meu peso normal e, apesar disso, sinto-me mais disposta que antes. Tanto, que tomei coragem e pintei o cabelo com Bigen (não agüentava mais as raízes brancas no espelho), uma tintura sem amoníaco e estou me achando muito mais bonita. Preciso comprar roupas de gestante porque a barriga está, definitivamente, grande e minhas blusinhas…ah…quase todas, já elvis!

Comecei a ter uma dorzinha irritante nos joelhos. Fui ao ortopedista e ele me disse que deve ser por causa da barriguinha e me prescreveu 6 sessões de massagem. Uma amiga minha disse que este negócio de terapia no joelho é frescura de grávida. Eu acho até que pode ser verdade, porque as vezes a dor some completamente, mas não vou dizer nada à Martin. É preciso compensar a falta de desejos extravagantes com alguma frescurinha e mimo. Senão, não vou ter nada de anormal para contar ao Luka quando ele chegar.

* * *

E saiu hoje no G1
Engravidar faz mulher ter pesadelos

Tivemos dois dias de cineminha intenso. A primeira sessão foi na ginecologista – consulta de rotina – e pelo visto está tudo nos conformes, tanto comigo quanto com o bebê. Vimos nosso pequenino na tela do ultrasom de novo e ele deu até tchauzinho para nós. A qualidade da fotinha, infelizmente, não é das melhores, mas pode-se ver o corpinho todo dele e as pernas na posição de peru de natal. Outras partes do corpo ficaram por conta da nossa imaginação, que anda a mil, e como não soubemos ficar com o bico calado, acho até que a médica deve estar pensando que Martin e eu somos dois alucinados.

A segunda sessão foi no Cinemax aqui perto de casa. Fomos ver “Os Simpsons” e eu não pude deixar de fazer uma certa previsão analógica entre o Bart, Homer, Martin e o bebê.

Passada a euforia, tivemos que nos concentrar na espera do dia seguinte, dia em que seria feita a Amniocentese. Amniocentese nada mais é que um exame de prevenção. Nele, é introduzida uma agulha finíssima na barriga da mamãe e é retirada uma certa quantidade de líquido amniótico para análise em laboratório. O fantasma deste exame me fez perder grande parte da alegria da primeira e da segunda sessão de cinema e já nem conseguia mais olhar pra fotinha do bebê-peru. A noite ficou tão looonga…

Mas, finalmente, amanheceu. Fiz uma oração e me despedi do Dicker. Assim que entrei na clínica, comecei a me sentir mais à vontade. A recepção foi ótima e foi me explicado tudo com detalhes e com uma paciência surpreendente. A psicóloga que me deu as orientações de como tudo seria feito nem parecia alemã de tão simpática e meu medo foi sumindo enquanto ela falava. Fui para uma outra salinha. A médica me recebeu com sorriso nos lábios e enquanto eu me deitava, ela ficou conversando com a gente como se o que viria a seguir fosse a coisa mais natural do mundo. Frente a mim, estava um monitor enorme e ao meu lado Martin, sentado numa cadeirinha, tenso.

babylutschen-kopie.jpg Começou a terceira sessão. Esta sim, perfeita, clara, nítida e melhor que qualquer Cinemax alemão. Pudemos ver nosso pequeno detalhadamente, inclusive o bilinguilin dele. Sim, senhores, é um menino. Luka! Depois das  emoções, medições e mais medições foram feitas e iniciou-se a retirada do líquido. Resultado: em menos de um minuto, três seringas ficaram entupidas de uma aguinha amarela. Não tive coragem de observar a agulha entrar no meu útero, mas Martin, que viu tudo no monitor gigante, afirmou que a agulha ficou bem longe do Luka, que, aliás estava tranquilíssimo, chupando o dedo.

Segundo a médica, tudo parece correr perfeitamente, mas devemos esperar duas semanas para receber o resultado do exame. Não me preocupo com ele. Sei muito bem que Luka é saudável, lindo como o paipai dele e, claro, inteligente como a mamãe.


pastel.jpg Esta 17ª. semana começou maravilhosamente bem. Sinto-me mais disposta e até já recomecei a traduzir as cartas do Plan International. A azia, pelo que tudo indica, foi-se, mas, para o meu desagrado, deixou um convite para a insônia me fazer companhia noite a dentro. Eu, que era daquelas “deitou, dormiu”, tornei-me um zumbi e não há chazinho, banho morno nem leitura excitante que me ajude . Conto carneirinhos, jumentinhos, sapinhos, jacarezinhos e nada do sono chegar. Como não gosto de olhar para o teto, fico reparando como Martin e Dicker dormem: emboladinhos. Dá uma inveja danada do sono deles!

Quando consigo adormecer já são 5 da manhã e o sono chega quebrado e recheado de sonhos. Outro dia, sonhei que haviam roubado minha barriga. Eu olhava pra baixo e não a via, a alisava, mas a sensação de acariciar bola de vôlei tinha desaparecido totalmente. Comecei a gritar “Mãe, me ajuda, mãe, me ajuda” até que acordei com lágrimas nos olhos, confusa e ao mesmo tempo feliz por perceber que a bola continua aqui, esférica como deve ser.

* * *

Uma das coisas que mais me está impressionando ultimamente é a conexão “deixa que eu te dou”, “deixa que eu te empresto” que está se formando à nossa volta. Basta alguém saber que estamos grávidos para se prontificar a dar ou emprestar algum dos muitos utilitários que circundam o universo gestacional e maternal. Isto porque sempre tem alguém que fala-de-experiência-própria, que comprou determinada coisa e só a usou por dois meses minguados. Daí que é observando a experiência dos outros que não negamos generosidade. Quer dar? Dê!

Um dos presentinhos, aliás, que eu e o bebê adoraríamos ganhar é CD infantil. É que, estando fora do Brasil, fica difícil lembrar de musiquinhas para criança e, pelo que li, seria bom se eu escolhesse, desde já, uma linda canção, já que o bebezinho a partir da próxima semana já poderá escutar muito bem o que se passa neste nosso mundo exterior. Será que alguém vai se habilitar?

A propósito de música, aprendi que bebês não gostam de músicas melancólicas. Ouvir música clássica é aconselhável, mas o melhor é escolher compositores como Vivald e Mozart que são mais alegrinhos. Hoje nós escutamos muitas musiquinhas do “Palavra Cantada”. Não sei se ele gostou, mas algumas me fizeram tão bem que eu fiquei dançando na sala enquanto Dicker me servia de platéia com os olhos arregalados.

Pensando bem, não é pra menos que ele tenha se espantado com a minha alegria. Pra quem sempre escuta o papai cantar em alemão a meiga musiquinha do gato que saiu na neve e voltou pra casa com botas brancas, ouvir sair do stéreo o som de crianças cantando que “atiraram o pau no gato, mas o gato não morreu”é realmente assombroso.

* * *

versão politicamente correta do “atirei o pau no gato”

“Não atire o pau no gato – to

porque isso – so

não se faz – az – az

o gatinho – nho

é nosso amigo – go

não devemos maltratar os animais

MIAU!”

 

 

mutterpass.jpgContinuo com os meus 54 kilos. A barriga cresce a olhos vistos, mas meu peso permanece igual. Isto me preocupa um pouco, apesar de ler e ouvir dezenas de conselhos de que não há nada de anormal comigo. Só estou mesmo fora das estatísticas. Parece que a azia finalmente está seguindo seu caminho e procurando outra grávida para apurrinhar a vida – oh alívio angelical – e estou curiosa para saber se é ela que está atrapalhando meu apetite. Se sim, então vaja con Dios!

Não deveria ficar aliviada com a despedida da azia. Não sei nem porque reclamei tanto dela. Se eu não tivesse tido azia e enjôos, teria, com certeza, telefonado para médica todo dia para saber se está tudo bem. É aquela coisa de mulher que não sabe o que quer: se tem reclama, se não tem, reclama da mesma forma. Portanto, obrigada azia por me fazer companhia durante estes quatro meses.

Fomos ao clube nadar. Vesti um maiô preto e fiquei me olhando no espelho antes de sair de casa. Até que não fiquei esquisita dentro dele, mas Martin diz que estou engraçada, caminhando feito uma pata. Fiquei reparando se isto é verdade e não é que ando mesmo com a barriga esticada pra frente e as pernas na posição de ponteiros de relógio que indicam dez para a uma! De qualquer forma, quando estou nadando, ele, nem ninguém, percebe que tem uma pata na piscina, isto até eu soltar um quá quá no ouvido dele 😉

diario.jpgO bebê, há semanas, deixou de ser embrião para tornar-se feto e eu comecei a escrever um diário para ele. Quero muito saber o sexo dele de uma vez porque, assim, impede que eu o trate como “querido feto” sempre que começo um novo parágrafo.

Como saiu um sol exuberante (aleluia!), fomos ao parque passear. Voltei cheia de picadas de mosquito e espero que elas não tragam consequências negativas para o bebê. Liguei para a médica, mas quem atendeu foi a maquininha falante. Claro, sexta-feira na Alemanha é um dia meio morto. Trabalho, para alguns, só até o meio-dia. Vidão, não é? Fiquei e ainda estou super encanada com as picadinhas, que, coitadinhas, nem coçar, coçam e já me debrucei na internet à busca de informações. Como sempre, Martin diz que eu penso demais, que eu pesquiso demais, que eu me deixo impressionar demais. Talvez ele tenha razão.

O que acontece, no entanto, é que, desde maio, vivo em função desta barriguinha. Às vezes curvo-me e a abraço toda, como uma forma de dizer pro bebê que estou fazendo de tudo para protegê-lo do mundo aqui fora. Pode parecer exagero de gestante, mas a responsabilidade que está pesando aqui nos meus ombros é imensa e eu quero fazer a minha parte direitinho. Ser mãe é cuidar do filho desde a concepção. Portanto, se o meu papel é cuidar do bebê, então quero cumpri-lo direitinho. Não quero ser mamãe relapsa, mas também não quero me tornar uma perfeccionista obsessiva. Por isto, agradeço a Deus pelo marido que me deu, que coloca um freio nos meus medos gigantescos.