Pode ser pretensioso o que vou dizer, mas estes últimos meses tenho vivido como uma rainha, ainda que meu reino se limite a quase 70 metros quadrados de área coberta e que meus súditos sejam apenas dois: o marido e o gato. Pelo primeiro, posso me dar ao luxo de ser financiada -que paradoxo! – pelo último, deixo-me apenas ser aquecida, já que um vassalo ao lado do meu trono, refrescando-me com um leque enorme de folhas de palmeira, enquanto folheio revistas e livros de bebês, foge completamente à realidade do norte da Alemanha.

Renunciar ao trabalho fora de casa foi uma decisão minha (se bem que o vassalo n°1 opinou) e, salvo alguns momentos de feminismo exacerbado, não me arrependo. Luka preenche meus dias, minhas semanas, minhas prioridades e meus pensamentos. Tudo agora gira em volta dele – como a terra gira em torno do sol – transformando meu reino num acumulado de coisas imprenscindíveis.

Foi assim com a máquina de lavar louça, que até então eu considerava um artefato nulo e esbanjador de energia, pelo menos para dois adultos com manias ecológicas. Esta coisinha, no entanto, veio parar na nossa minúscula cozinha porque meu vassalo pé-de-chinelo, já prevendo os dias infernais que ele terá com um pano de prato nas mãos enquanto estarei acumulada de afazeres maternos, eliminou antecipadamente os riscos de stress. Ele pediu autorização à rainha, que aliás sempre dá a última palavra, e assim foi feito. Porque ela também não é besta.

Depois, principiou-se a mudança da estante de livros, da mesa, da impressora e outros trecos do recinto escritorial para nosso leito de amor ou para a lixeira mesmo. O PC foi aposentado e a mesa foi parar no sótão, pois, definitivamente, não há como encaixá-la entre a cama e o guarda-roupa. De modo que nosso escritório não existe mais. Lá será apenas e tão somente o quarto do Luka. O problema é que, vazio como se encontra agora, ele exige dos meus olhos, todas as vezes que abro a porta, rapidez na decoração, e, conseqüentemente, mais trabalho para mim, que devo pesquisar e pensar e analisar e calcular e telefonar e,e,e…

O vassalo n°.1 paga as contas, instala e desinstala móveis, troca fios de lugar. e etc. sem problemas. Às vezes, ele perde o respeito e reclama de mim para os colegas, dizendo que ainda é cedo demais para tais procedimentos ou, pior de tudo, fica afirmando que isto é “desespero de mulher barriguda”, como ele mesmo designa meus chiliques de rainha.

Talvez ele ainda não tenha conseguido entender que vassalo não retruca ordens. Então, quando isto acontece, eu o faço recordar, com um beijinho na ponta do nariz, de que foi ele, mais do que ninguém, que me coroou. Portanto, agora, que agüente.

* * *

Luka ganhou uma cadeira de bebê para o carro. Um presente valioso, tanto para ele quanto para o nosso bolso. Acho que começamos bem.

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